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sábado, outubro 27, 2012

Das linhas, das formas, das luzes

 

Tens-te numas linhas que tento descoser para te libertar às formas, das cordas, que te expandam para fora dos limites onde estiveste delineado. Sais na estação e envolves-te nos novos limites do tempo, à medida que os relógios precisam de corda, e que as luvas reaquecem o corpo gelado pelo fumo, que aprofunda o interior e tinge a calçada. Apressados, numa multidão entre partidas e chegadas. A vida num terminal de comboios faz um fardo de melancolia e tece constantemente a memória. À procura de rostos entre rostos, o som pinga com a chuva, e o cinzento dá-se às cores aguardadas quando o céu abre um pouco. O dia sobrepõe-se à noite, a cidade foi sempre das luzes.





terça-feira, outubro 16, 2012

Prólogo



Andava a escrever uma história de ficção-científica. O prólogo era/estava assim:

“Thus the discovery of fire gave rise to the first assembly of mankind, to their first deliberations, and to their union in a state of society. For association with each other they were more fitted by nature than other animals, from their erect posture, which also gave them the advantage of continually viewing the stars and firmament, no less than from their being able to grasp and lift an object, and turn it about with their hands and fingers.”

Dá-se o ano de 1895, num recanto cosmopolita do mundo.
Observamos as baforadas num cachimbo, tomadas conscientemente como uma desculpa para fazer uma pausa. Muitos anos mais tarde viria a correlacionar-se o peso e influência do tabaco no grau de oxigenação do cérebro. Descobertas tardias que em nada servem os objectivos do homem de meia-idade, recostado na poltrona, entre sombras – que pretende concentrar o máximo fôlego de inteligência e raciocínio num sopro de escrita. Depois de fumar, recupera o lugar à secretária e torna a debruçar-se sobre o papel.
A catadupa de recentes acontecimentos tornados públicos, em que se incluía a aplicação científica do raio x, por exemplo, parecia-lhe um sinal de que a inocuidade daquilo a que entre amigos chamava de "invenções de fim de século" começava a tomar as proporções para desestabilizar o admirável mundo, e em melhor instância: reorganiza-lo...
Olhou de relance os velhos e impecáveis óculos de aviador, por detrás da vitrina do elegante e alto móvel à sua frente. Deteve-se um instante antes de assinar a última acta, inspirando fundo, numa espécie de juramento hipocrático. Dentro de poucos anos os sonhos da Comunidade, paralelos a coisas ultrapassadas e pouco ambiciosas como os raios x, realizar-se-iam. "Os raios solares brilharão mais do que nunca na terra."
"Eles nem imaginam..."

Tomemos o homem que percorre as folhas que acaba de assinar, de trás para a frente, entusiasmado mas vagaroso, como exemplo das histórias pouco ou nada oficiais da humanidade. É mais um caso de vida dedicado aos estudos científicos, não descurando, como bom filósofo, a vertente que liga todas as matérias ao mesmo rumo - no qual reside a esperança da Comunidade em finais de 1895.

Batem à porta levemente. É noite de consoada. Clara entra e pede ao pai que a acompanhe. Pois que os convidados, familiares e amigos, já comentam – uns em surdina, outros contrafeitos, maliciosa ou desconfiadamente. "Será de propósito?"
Clara tem vinte anos, é meiga, franzina e sedutoramente pálida. Feliz, desconhece os meandros mais difíceis ou obscuros da vida, por enquanto. Sorri em silêncio, olha o chão e os próprios pés. O homem, seu pai, acompanha-lhe o olhar e repara nos luxuosos e cintilantes sapatos, da cor viva das maçãs proibidas. Sorri também, buscando-lhe o olhar terno com os seus próprios olhos vivos, despojados finalmente de um secretismo perigoso.
Horas mais tarde: Clara anda para trás e diante, em passos nervosos, tentando manter uma certa compostura e não cedendo ao descontrolo emocional que a situação lhe provoca, bem como aos restantes familiares ali presentes, reunidos e dispostos em torno da cama de Bernard. Bernard, Bernard, Bernard: como sempre, e agora, por motivos preocupantes, o nome mais evocado pelos entes queridos e próximos, a figura patriarcal, a terna figura quase sempre fisicamente ausente, mas sem nunca deixar de pairar por cima e dentro das cabeças de cada um.
Clara era a escolhida, desde muito nova o fora, embora nunca o exibindo ou sequer sentindo particularmente a extrema afeição do pai. A mais nova, tão nova que nenhum dos outros: Charles, Emma e Dee, poderia admitir um resquício de ressentimento, ciúme ou inveja.
- Onde está o Charles? – Emma é ensurdecida pelas badaladas do Big Ben que vêm pela janela aberta. O Palácio de Westminster encontra-se a uma curta distância do Hospital.
Cleo, a digna esposa, e Dee, entreolham-se. Ouviram a pergunta e o sino, mas mantêm o silêncio inquieto.
"O coma tem um prognóstico muito… reservado."
Charles entra de rompante com o rosto e cabelos desgrenhados, sinais de quem passou a cara por água, olhos ainda avermelhados. Mãos trémulas. Enquanto ganha fôlego e fecha a porta atrás de si, dá por fim as más notícias. Deixa-se então cair numa cadeira e olha o chão.
Estavam num quarto modesto – humilde e graciosamente mobilado, com o indispensável da parafernália típica aos cuidados intensivos. Mas se acaso lhes dissessem nessa altura que estavam dentro de um hospital, ao primeiro instante, não acreditariam. Se porventura viessem a ouvir que a morte de Bernard ditava um paralelo na prolongada doença da rainha, não poderiam fazer outra coisa senão olhar o chão e pensar fundo, não querendo acreditar que a sua misteriosa vida tivesse tido ligações dessa natureza.

À margem do conhecimento geral, o fim da época mais próspera e imperialista de Inglaterra começara efectivamente mais cedo do que depois a História rezou. Os ditames da engrenagem social e política regeram-se conforme uma nova normalidade, durante muitos anos subsequentes, deixando aparentemente de lado uma certa Comunidade. Mas na invisibilidade foi crescendo, lentamente, um fogo sem fumo.

Avancemos algumas décadas e encontremos o diário de Fernando, desajeitada e deliberadamente colocado dentro de um grosso e atafulhado dossiê com notas contabilísticas, por sua vez estrategicamente colocado entre dois distintos livros, discreta e recentemente editados, do seu designado "Mestre favorito", Júlio Verne.

Lisboa, Portugal - 9 de Janeiro de 1937
Bernard morreu poucos dias antes do começo de 1896. Um ano invulgar... bom, ou talvez como todos. Poucas pessoas ou já ninguém actualmente sabe ou poderá saber sobre as circunstâncias concretas e pormenorizadas da fatídica ocorrência. O premeditado homicídio, naquela longínqua noite de natal, não deixou pontas soltas por onde pegar, para investigações a fundo. Sei-o, como poucos saberão, que ironicamente (ou não) se trata um pouco do reflexo da sua própria vida e dos riscos a que, quase secretamente se propôs. Existe novamente, nos dias que correm (Portugal incluído – nos meios a que isso diz respeito, convenha-se), um exílio de informação palpitante a querer emergir dos confins dos arquivos elegantemente arrumados. Imagino Bernard mumificado, imagino-o nos tempos em que foi faraó na obscuridade da sua pirâmide quase invisível. Sim, estou cada vez mais obcecado com a ideia de que há um mistério maior do que os que já vou descobrindo e desmistificando. Há crescentes reminiscências bem no centro dos meios científicos, relativas aos eventos que quase secretamente quase mudaram o mundo - os meios que envolveram Bernard, que ainda sobrevoam aquela morte. Há vultos, abutres, sombras indistintas a cada passo que dou atrás no tempo. Atrás do tempo.

Lisboa, Portugal - 22 de Março de 1937
Estou ansioso pela viagem e, sobretudo, ansioso pela estadia; sensível e positivamente enervado: vou poder ver, com os meus próprios olhos, a lendária biblioteca da Comunidade. Dizem que está lá, a par dos volumes de botânica, o diário “decifrado” de Sir Francis. Que as conversas com o pai têm um leve e obsoleto interesse do ponto de vista literário, mas que os acompanham belos pensamentos sobre a psique humana e revelações menos vulgares sobre a personalidade atormentada de Darwin. Dizem as más-línguas do meio que as descrições que lhes interessariam mais, isto é, os apontamentos sobre Bernard, as impressões de Francis sobre o ilustre secreto Comunitário, são escassas e desprovidas de cientificidade. Fruto da então juvenilidade de Francis. Não deixa, contudo, de se apresentar como um objecto de estudo a não menosprezar. Enfim, desejo ler tudo… e mais ainda aquilo que poderá ter escrito sobre Frances, a sua filha – a neta de Charles Darwin. Quero vê-la, muito. Falar-lhe, novamente.

"The grains of sands so shining-small
Soft through my fingers ran;
The sun shone down upon it all,
And so my dream began."

sábado, outubro 06, 2012

Tied


"These fleshless lovers met,
A heaven in a gaze,
A heaven of heavens, the privilege
Of one another's eyes."

sexta-feira, outubro 05, 2012

No Outono

Estou neste outro sítio, longe disso, forçosa e deliciosamente alienado a imbuir-me nas cores das canções de um tempo no som da voz, a qual, me conduzindo à devolução das utopias, me traz o teu calor pleno - quando faz frio - e onde todos (existem, todos os que existem) estão ornamentados nos excessos por não haver quaisquer defeitos, não sendo isso, portanto e afinal, excessos, mas a natural predisposição dos seres sonhadores felizes no mundo paralelo que é uma utopia real e não a das nossas cabeças ideológicas.
Às cores, aos sons da inspiração que nada expira e tudo isso guarda, dentro de mim.
A manhã repetida e eterna. No Outono. Vivi mil vidas e não o sei, ou não me lembro.
Ou todas elas são mentira.


quarta-feira, outubro 03, 2012

Complément direct...!

"C’est drôle comme des mots peuvent resurgir quand on s’y attend le moins. Il y a quelques années, on n’aurait jamais osé employer le mot « poétique » : trop galvaudé, sucré, mièvre, désuet. Sa force éruptive était renvoyée au passé. C’est avec d’autres armes que l’on pouvait défendre un « autre cinéma », interrogeant plus frontalement les formes : le cinéma du corps, de la sensation, le cinéma d’avantgarde ou expérimental."