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segunda-feira, abril 09, 2012

Suffer well...

"O budismo, ainda uma vez, é cem vezes mais frio, mais verídico, mais objectivo. Já não precisa de preparar a sua dor, a sua faculdade de sofrer, pela interpretação do pecado; diz simplesmente o que pensa: «Eu sofro.» Para o bárbaro, pelo contrário, sofrer não é nada que convenha: precisa primeiro de uma explicação para confessar que sofre (o seu instinto leva-o antes a negar o sofrimento, a suportá-lo em silêncio). Neste caso, a palavra «Diabo» foi uma coisa boa: tinha-se um inimigo preponderante e terrível – não havia necessidade de se envergonhar por sofrer com um tal inimigo.
No fundo do cristianismo há algumas finezas que pertencem ao Oriente. Antes de mais, ele sabe que é absolutamente indiferente em si que uma coisa seja verdadeira, mas que é da mais alta importância que se julgue que é verdadeira. A verdade e a fé em alguma coisa são dois mundos de interesse absolutamente afastados um do outro, quase mundos de oposições – chega-se a um e a outro por caminhos radicalmente diferentes. (…)
Se, por exemplo, o saber-se salvo de um pecado dá a felicidade, não é necessário, como condição, que o homem seja culpado; o essencial é que se sinta culpado. Mas se, de qualquer modo, a fé é necessária acima de tudo, tem de se desacreditar a razão, o conhecimento, a investigação científica: o caminho da verdade torna-se caminho proibido – a esperança intensa é um estimulante muito maior para a vida do que qualquer outra felicidade que se realize. É preciso apoiar aqueles que sofrem com uma esperança que não possa ser contraditada por nenhuma realidade – uma esperança que não possa realizar-se: uma esperança do além. (Por causa desta faculdade de fazer sofrer o infeliz, a esperança era considerada pelos Gregos como o mal dos males, como o mais astucioso de todos, aquele que ficou no fundo da caixa de Pandora.) – Para que o amor seja possível, Deus tem de ser pessoal; para que os instintos mais baixos possam fazer parte do jogo, é preciso que Deus seja jovem. Para o fervor das mulheres pôs-se um belo santo em primeiro plano; para o dos homens, uma Virgem Santa. Isto se o cristianismo se quiser tornar senhor do terreno onde o culto de Afrodite e o culto de Adónis tinham já determinado a concepção do culto. A reivindicação da castidade reforça a veemência e a interioridade do instinto religioso – a castidade torna o culto mais quente, mais entusiasta, mais intenso. O amor é o estado em que o homem mais vê as coisas como elas não são. A força ilusória encontra o seu grau mais elevado, o mesmo acontecendo com a força adoçante e com a força glorificante. Com amor, suporta-se mais, tudo se sofre. (…)"

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