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sexta-feira, fevereiro 10, 2012

Um Outro Espantalho

Uma história, em poucas linhas, que escrevi hoje:

Havia um espantalho que ia ficando surdo com o tempo.
Pouco se mexia - só o vento o transportava, por estação, alguns milímetros em direcção à queda, à ruína - cortava-lhe, leve e progressivamente, as orelhas - ferraduras douradas, feria-lhe os olhos - botões pretos, levava-lhe o cabelo - de palha escura, mas trazia-lhe o cheiro das penas dos pássaros pintados ao nariz - um desenho na almofada, com dois furos pregados.
O seu ofício era cantar músicas antigas (tão antigas quanto os seus antepassados mais antigos) que não tinham letras, pois que não tinha boca, para chamá-los: vinham poisar-se nos dedos gigantes esticados para a frente, como os de um sonâmbulo hipnotizado e determinado. Vivia assim, num campo fértil, abandonado há anos pelos caçadores. Um dia, um falcão de outras paragens avistou-o e tentou agarrá-lo. Os pássaros fugiram, assustados.
Não conseguiu levá-lo, antes o fez tombar em grande aparato na terra de ervas daninhas e vestígios de frutos apodrecidos. E ali se foi enterrando, até não sobrar visão alguma do espantalho que fora.
A terra floriu aos poucos e durante alguns dias, alimentada pela música que continuou, ainda a encantar, também, alguns pássaros.

Um dia, já surdo e só pau, trapo, ferraduras, botões e palha, sentiu passadas humanas nas redondezas. Eram caçadores e agricultores, à procura de pássaros, e vinham recultivar o terreno com árvores novas, verdes, cheias de seiva e sombras, e, galhos novos para os pássaros...
Pelo caminho, viram um ninho cuidadosamente disposto e alicerçado na terra. Os pássaros voavam longe dali.
(Duarte Custódio)

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