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terça-feira, julho 07, 2009

Veio e foi

Gláucia tinha reparado nas horas há já um tempo, quando eram duas da manhã. Virada para as persianas semi-corridas, quem não a conhecesse podia dizer que espreitava por entre as brechas, para ver o camião do lixo passar. O calor abafante pegava-se-lhe à pele e desorientava-a alguma coisa, mas estava alerta porque aquela noite era, por razões tangentes, parecida com a que a levara ao hospital há menos de um ano. Podiam tentar trocar-se as voltas a um cego, mas não a mobília, muito menos a mesinha. A máquina de escrita em Braille estava lá, mas Gláucia não lhe mexia desde o mês passado.

O facto de existirem razões, fossem elas quais fossem, para um temeroso paralelo com a noite de então, acabou enfim, também, por lembrar-lhe uma das companheiras de sala do hospital. Gláucia não era indolente, mas ao lado de Palmira era a mais pacata paciente com que a paciência se podia munir. A própria paciência personificada, até. Todos esses santos hospitaleiros dias andavam por ali a filha e por vezes o genro, a zumbir, no horário das visitas. Levavam-lhe sopa de agrião, frango, feijoada (que inesquecível feijoada, justamente no dia em que os esgotos e os resíduos e a restante porcaria das profundezas subiu ao corredor e àquelas salas), fruta, uns doces dia sim dia não, como que a coincidir com a ida do neto. E ele: "Ó 'vó não comes o chocolate??", "Não filho, come tu q'avó já está cheia". Muito embora não estivesse e soubesse que o que o pequeno queria perguntar era se podia ferrar o dente na iguaria.

Palmira sempre soubera o que queria e não se inibia de dizer o que quer que fosse. Era ela que usufruía de um serviço, e para que assim o fosse devidamente, metia todos na ordem. Gláucia recordava com um sorriso a noite da "festa". Enfermeiras e médicos, na sala ao lado, no escurinho da noite dentro. "As enfermeiras e os médicos, na pouca vergonha, que pouca vergonha, que pouca vergonha!!" Tinham despertado dos sonhos para risadas e gritos abafados, passos, mais risos, um copo a partir-se, a Palmira, conversavam na manhã seguinte, parecia até que tinham havido gemidos, de certeza que tinham sido gemidos, "estavam para ali a gemer, aqui mesmo ao lado!". Gláucia assentia, pois também tinha ouvido, sim e sim, "isso já não sei", o certo é que nada daquilo a incomodava. Palmira era, em certos aspectos, o oposto da pós-moderna Gláucia. Viúva de um marido sete anos mais novo, que estivera nas colónias, "ai as colónias, as guerras, que sofrimento era", "ó Palmira, mas eu é que lá estive", "mas não julgues tu que eu não sei, que eu não sinto, eu bem sei o que aquilo foi, parecia que não respirava, e éramos todos pobres", "mas voltei vivo ou não, mulher?". O que passou passou, e só ela sabe o que passou. Ninguém se deveria atrever a dizer que sabe mais de outra pessoa do que de si mesmo, ou mais da pessoa do que ela própria, sempre dizia Palmira, um saber que transmitia.


Enlameado quase até aos joelhos, lançou-se como um touro atiçado, com os cornos virados para a fuga. Agarrou-se à rua na alçada do tempo trovejante. Não tinha passado: o cinzento continuara mesmo no raiar de hora e meia antes do anoitecer, bem como o calor húmido e o tilintar das goteiras para o chão. Fazia-se de trovões, o "filme", a acção, não podiam ser outros: as pernas como se o torso tivesse sido marcado a brasas. Corria pela sobrevivência, sabia-o, a dívida ao líder dos dealers no encalço era maior que a da morte à vida, e estendera-se a esse ponto: custar-lhe tudo o que conhecia. "Estou num filme", "e no filme eu morro". Quase como se na vida não morresse.

Gláucia continuava em vigília, sorrindo absorta, inspirando o sabor do ar, mais fresco junto à persiana do que para dentro de casa. "Não fujas cabrão!" ouviu subitamente na rua. Pessoas a correr, primeiro um, quase lhe sentia o ofegar, como uma gazela, depois uma manada. "Já te apanh...". O ribombar de um trovão cortou o resto do som. O vizinho de cima despertou, senhor já um pouco senil, pareceu-lhe uma aparição: uma voz divina castigadora em busca do sangue de um pecador. Gláucia pôde efectivamente jurar que esse primeiro que vinha entrou pela porta do prédio. Quem a teria deixado aberta? Como? Virou-se, lábios e maxilar rígidos, deu dois passos.

O rapaz já só menos de dez metros de distância tinha dos outros. Entrou sem pensar, na rua não duraria muito mais. Fechou a porta atrás de si.


É uma continuação (para continuar) ou um epílogo para
isto (já nem percebo o título!).

Deu-me vontade de escrever coisas, mas também já a voltei a perder.

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